terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

De como se fabricam as crises

Em 1993, o Canadá via-se cercado por notícias que alertavam para um «muro de dívida» que se iria abater sobre o país caso não fossem tomadas previdências.

A «catástrofe financeira» provinda da «crise do défice» assolava os canadianos com frequência cada vez que na televisão ou nos jornais os "peritos" e os "economistas" tinham a palavra. Falava-se até na possibilidade da Moody's e da Standard & Poor's baixarem o rating da economia canadiana e os investidores estrangeiros retirarem o seu dinheiro do país de forma galopante e repentina.

A Statistics Canada argumentava que a «crise» era causada pelas «altas taxas de juro, que fizeram explodir o valor da dívida». Logo surgiram vários Messias com a solução. Corte nos gastos públicos como a saúde, a educação, seguros de desemprego e programas sociais.

Curiosamente, Vincent Truglia, analista sénior da Moody's para a economia canadiana, afirmava que «considerava o Canadá um investimento excelente e estável», apesar de ter recebido telefonemas de grandes empresários e bancos canadianos para «emitir relatórios negativos» sobre a situação económica do Canadá.

O facto do rating canadiano se manter estável e elevado dificultava a tarefa de manter os canadianos amedrontados, mas com todo o celeuma gerado e que continuava a pairar nos mercados, Truglia decidiu fazer um «comentário especial», no qual explica que «vários relatórios publicados recentemente exageram grosseiramente a posição da dívida fiscal do Canadá. Alguns deles contaram o número duas vezes, enquanto que outros fizeram comparações internacionais inapropriadas(...). Estas medições incorrectas podem ter desempenhado um papel nas avaliações exageradas da seriedade do problema da dívida do Canadá».

Após o seu comentário, Truglia recebeu um telefonema zangado e aos gritos de um membro de uma grande instituição financeira do Canadá. Algo que nunca lhe tinha acontecido.

No entanto isso não impediu o Capital canadiano de atingir o seu objectivo. O Governo, na altura liderado pelo Partido Liberal, cortou a eito nos subsídios de desemprego e apesar das várias mexidas nos orçamentos desde então, o valor perdido nunca mais se recuperou.

Mais tarde, foi posto a descoberto que a crise tinha sido manipulada e nunca tinha havido «muro de dívida» nenhum. Mas o estrago já estava feito.

O Carnaval só agora começou

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O que escondem as palavras


Por detrás do desígnio de «modernização do secundário» esconde-se negócios como os que o Público revelou hoje, no qual ficamos a saber que a maioria das escolas secundárias deixarão de ser património do Estado para passarem a fazer parte da empresa pública Parque Escolar.

Manuel Tiago, deputado do PCP, já previu que «no futuro, será a Parque Escolar a gestora de todas as escolas e se um dia o Governo decidir privatizá-la, o parque escolar passa a ter uma gestão empresarial». Num sistema de ensino com gestão empresarial, os encarregados de educação têm de pagar pela educação dos seus filhos, o que acontece com as escolas impostas em Nova Orleães depois do Katrina.

Numa escola com gestão empresarial, também não há lugar à participação dos professores na estruturação pedagógica das escolas e os sindicalistas são perseguidos com ameaças de despedimento.

Quase todos os grupos se insurgem contra esta medida, desde a FenProf, a Frente Nacional de Educação, o Conselho de Escolas e a Associação Nacional de Dirigentes Escolares. Só a Confederação de Pais sai em defesa desta política, mas para quem conhece um mínimo que seja a Confap, esta é um associada do Partido Socialista.

Para compreendermos a natureza do Parque Escolar, basta tomar atenção à adjudicação de obras nas escolas a empresas privadas, no valor de 35 milhões de euros, onde se encontram inúmeras parcerias de empresas de construção civil, sendo que uma delas, a Britalar, tem na sua direcção o antigo administrador da Parque Escolar entre 2001 e 2007, Saraiva Menezes, «mão direita» do presidente do Braga e presidente da mesa de concelhia de Braga do CDS-PP.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Os sinais do Mercado

Actualmente, perante a crise de dívida que se está a abater sobre a Grécia, Irlanda e dentro em pouco, Portugal, muito se fala das reacções dos mercados financeiros e das consequências destas nas dívidas públicas.

A lógica é que quando a "coisa" parece estar em vésperas de implosão, os mercados castigam os países através do rating da dívida, passando a ser mais difícil ao país pedir empréstimos no estrangeiro. Como não podia deixar de ser, os adeptos do Mercado Livre não questionam a autoridade das instâncias, como se a sua Razão fosse inabalável à Memória. Não é raro referirem-se às instituições do Mercado Livre e suas linhas ideológicas como o garante da "transição democrática" do Leste Europeu e das "ditaduras de Direita".

Numa altura em que também se celebram os 20 anos da libertação de Nelson Mandela, que levou à derrocada do Apartheid, é um curioso exercício saber quais foram os "sinais" dos mercados financeiros ao fim do regime branco.

No exacto dia em que Mandela foi libertado, os mercados entraram em pânico e causaram a desvalorização do rand, moeda sul-africana, em 10%. Mais tarde a companhia de diamantes De Beers mudou a sua sede da África do Sul para a Suíça e em 1996, já com a democracia instaurada, o rand desvalorizou 20% num só mês, além do «capital» que estava a sair do país com os «ricos e nervosos do país colocavam o seu dinheiro em contas no estrangeiro».

As reacções do Mercado eram de um histerismo tão ridículo que após Mandela mencionar a nacionalização das minas de ouro sul-africanas numa reunião com homens de negócios, o All-Gold Index, índice de referência do ouro, caiu 5%.

As fortes mensagens do Mercado Livre, deram cedo a entender às figuras de topo do Congresso Nacional Africano, movimento de libertação deste país, que se não queriam um país mais pobre quando atingissem o poder teriam de negociar com as multinacionais do antigo regime e os economistas das instituições internacionais.

O medo da miséria mais abjecta levou o CNA a estabelecer uma política de compromisso com os interesses económicos globais e que suportavam o apartheid. O compromisso foi desde a independência do seu Banco Central, liderado por Chris Stals, o mesmo homem que o chefiara na ditadura; à impossibilidade de levar a cabo uma reforma agrária que redistribuísse as terras, de nacionalizar os «bancos, minas e indústrias de monopólio» ou até de subir os salários.

Entre outras concessões, ficaram por cumprir o perdão internacional da dívida pública deixada pelo regime do Apartheid e a criação de um imposto de solidariedade, com o qual as multinacionais que lucraram com a segregação ajudariam as famílias das vítimas.

Em contra-partida, o CNA lançou um plano público para a economia que o próprio Thabo Mbeki apelidou de Thatcherite. Era digno das terapias de choque que os liberais portugueses desejam para o país: «privatizações, cortes nas despesas do Estado, "flexibilidade" laboral, comércio mais livre e controlo monetário mais folgado.»

O resultado do plano está à vista, hoje, os sul-africanos são mais pobres que no tempo do Apartheid e os projectos públicos implementados foram abandonados a meio por falta de recursos.

O próprio Wall Street Journal afirmou que «o Sr. Mandela tem, nos últimos dias, ficado mais parecido com Margaret Thatcher e menos com o socialista revolucionário que em tempos se pensou que ele era», após este ter afirmado na sua primeira entrevista como presidente que «não há um único lema que nos ligue a qualquer ideologia marxista». Vê-se.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

cuidado!...eles são perigosos...


A Helena Matos, uma das nossas liberais de cartilha, vem hoje escrever no Público que o "terrorismo" de origem europeia não acabou e que se tornou mais perigoso, recorrendo actualmente à acção directa em protestos e manifestações.

Obviamente, não lhe incomodam as limpezas populacionais patrocinadas pela "Santa" América e seus compinchas espalhados pelos quatro cantos do mundo, ao longo do século XX e que continua hoje com cada vez mais força.

Como boa liberal que é, nem sequer lhe passa pela cabeça que exista uma correlação entre a proletarização da juventude europeia e a tal reorganização dos grupos «terroristas», como ela lhes chama.

Ao conectar os protestos de massas à "ameaça terrorista" expõe a sua vontade de proibir quaisquer manifestos contrários ao Capital e às suas terapias de choque, o desejo mais profundo dos liberais para pôr fim ao Estado Social, que eles apelidam de "Socialismo". Não enganam ninguém.

Os adeptos do Mercado Livre consideram os grupos revolucionários perigosos. Essa é a prova do seu medo e do nosso sucesso futuro.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O Estado dentro do Estado



As notícias que nos têm chegado da tentativa do governo PS de estabelecer um poder omnipotente nos órgãos de comunicação social revelam-nos mais uma faceta de um "polvo" que se vai revelando aos poucos, sem nunca aparecer na sua totalidade.

Os ataques à liberdade de imprensa por parte do PS, não são diferentes do silenciamento de Marcelo Rebelo de Sousa por Santana Lopes e das perseguições aos jornalistas no governo de Cavaco Silva.

Mas também não diferem dos lugares oferecidos aos "boys and girls" dos partidos que governaram Portugal nos últimos 33 anos, na Mota Engil, na PT, no BES e no BPN, nem das trafulhices dos submarinos, dos sobreiros e do Freeport.

Estes actos não são separados da acumulação de riqueza pelos grupos financeiros e da perda do poder de compra dos trabalhadores. Ou da proliferação das empresas de trabalho temporário, até a sua utilização pelo Estado, das benesses fiscais a quem paga o salário mínimo e dá um contrato de seis meses aos seus assalariados ou da expansão de um sistema de vigilância constante sobre os cidadãos.

É o natural resultado do domínio dos grupos económicos sob o sistema político português através dos seus comissários políticos: PS, PSD, CDS.

Eu devo ser bruxo...

«O novo conservadorismo americano» - El País.