terça-feira, 6 de janeiro de 2009


«O capitalismo é um sistema no qual as instituições centrais da sociedade estão, em princípio, sob controlo autocrático. Logo, uma empresa ou indústria é, se pensarmos em termos políticos, fascista, isto é, tem um controlo apertado que parte do topo e uma obediência rígida tem de ser estabelecida a todos os níveis...Tal como me oponho ao fascismo político, oponho-me ao fascismo económico. Penso que enquanto as principais instituições da sociedade não estiverem sobre controlo popular dos participantes e das comunidades, não faz sentido falar de democracia
- Noam Chomsky

A democracia assumiu-se como sistema político dominante desde a queda da União Soviética, trazendo consigo a perspectiva de um controlo autêntico das populações sobre a governação do seu país.

A democracia representativa com o sistema económico de mercado livre e aberto depressa se expandiu de modo epidémico por nações que em tempos anteriores se tinham dedicado à criação de uma sociedade progressista, igualitária e justa, convencendo-se a opinião pública pelos meios de comunicação e as supostas vozes da liberdade que esta seria a melhor forma de garantir a liberdade e prosperidade dos povos, porém a realidade contradiz directamente essa ilusão de uma suposta "igualdade na liberdade" definida por Tocquevile ao estudar a primeira democracia no mundo, a americana.

Porém a democracia representativa e o mercado livre são sistemas que reproduzem uma inequalidade social que não podem ser amenizadas pelos seus rituais de realização quase simbólicos.

Os cidadãos ao elegerem os seus líderes não estão a tomar um real controlo sobre as medidas que irão afectar as suas condições de vida, apenas nomeiam alguém com base em premissas de como irá actuar, mas quando chega a altura de serem feitas decisões que irão afectar a comunidade inteira (não importa quão grande ou pequena possa ser), a população é posta de lado e é uma elite que toma controlo da governação.

Na actual democracia, apenas a participação intensa dos cidadãos e a realização de referendos sobre temas importantes (e não apenas fracturantes) pode fazer valer a ideia de que um povo controla realmente a comunidade onde habita, trabalha e vive.

Na sua natureza anárquica, o Mercado Livre reclama e impõe uma "liberdade" de feições totalitárias, pois desde a alienação de património do espaço público para a exploração privada, ao amontoado de publicidade nas ruas e à linha do pensamento único nas instituições de educação e nos meios de comunicação, a doutrinação constante vai impedir o surgimento de novas formas de pensar, sendo que aquelas que se afirmam novidade, não passam de versões renovadas da mesma ideologia de mercado.

E como o Mercado se caracteriza pela acumulação de capital nas mãos de uma elite, criando oligopólios ou mesmo monopólios, o sector privado muito facilmente pode influenciar e impôr os seus interesses no mundo político e impedir a real participação dos cidadãos no processo democrático.

A ilusão de que vivemos em democracia é mantida por uma liberdade de expressão e imprensa, que seriamente escrutinada, não é senão a promoção de uma mesma linha de ideias proferidas por uma secção da população, enquanto o resto não tem voz por não ser conveniente ao capital e ao governo. As eleições que acontecem de 4 em 4 anos, vão contra o espírito de distribuição igualitária da liberdade que representa a democracia, pois estas são a eleições de líderes, cujas acções os povos não controlam e a imprensa teima em não dar atenção.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008



«Veio enfim um tempo em que tudo o que os homens tinham olhado como inalienável se tornou objecto de troca, de tráfico, e podia alienar-se. É o tempo em que as próprias coisas que até então eram comunicadas, mas nunca trocadas; dadas, mas nunca vendidas; adquiridas, mas nunca compradas – virtude, amor, opinião, ciência, consciência, etc. – em que tudo enfim passou para o comércio. É o tempo da corrupção geral, da venalidade universal»
- Karl Marx

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008


0 27 de Dezembro assume-se como a data-tragédia do fim de ano de 2008 após a morte de mais de trezentas pessoas e mil e quatrocentos feridos causados pelos raides aéreos israelitas em Gaza, uma parcela de território palestiniano com forte presença do grupo radical Hamas.

A faixa de Gaza é uma terra povoada por milhão e meio de pessoas que sofre um bloqueio económico brutal, ao ponto de nada poder ser importado ou exportado sem autorização de Israel, é um local em que a vida civil é controlada ao mais pequeno pormenor pelo Tsahal.

Sem vida, sem identidade e sem esperança o povo palestiniano encontra-se encurralado entre a ofensiva constante de um Estado de feições terroristas e o radicalismo islâmico do Hamas. Neste mapa de desumanidade, todos os que ocupam locais de poder são culpados, começando pela Alta Autoridade Palestiniana e a sua posição subserviente ao imperialismo da Direita política israelita (Kadima - no poder; e Likud - na oposição) apenas interessada em estrangular por todos os meios a Palestina.

A própria população israelita aceita indiferentemente estes ataques, segundo o Jerusalem Post 88% da população aprova os raides do Tsahal, porém também este sentimento provém de um sentimento de desesperança, de não ser capaz de vislumbrar outra saída além de uma agonia continuada.

Mas esta situação não surge do nada, o silenciar de forças pacifistas e progressistas que consideram o bem comum de ambos os povos contribui para que a acção bélica seja sempre posta como primeira medida de resolver uma situação demasiada complexa e humana. Forças políticas como o Partido Comunista Israelita e o Hadash embandeiram essa alternativa de paz e solidariedade entre os povos israelita e palestiniano.

Dov Khenin, membro do Hadash e parte da direcção do PCI, aponta qual o verdadeiro caminho para a resolução daquele conflito: «Há outro caminho: um acordo real de trégua. Não apenas um cessar fogo, mas também acabar com o bloqueio de Gaza e aliviar o extremo sofrimento de um milhão e meio de pessoas».
- informação retirada do resistir.info

domingo, 28 de dezembro de 2008


«A sociedade portuguesa está mais dual - para cada Magalhães ou história de "sucesso" há uma faixa cada vez maior de jovens zangados, presos às esmolas do Estado, aos recibos verdes e aos salários de 600 euros.»
-Bruno Faria Lopes em Diário Económico

sábado, 20 de dezembro de 2008


O Maio de 68 continua a ser no nosso imaginário histórico a epítome e maior símbolo de sublevação social de massas espontânea, capaz de quebrar o status quo político e de valores de uma sociedade inteira na qual lemas como «Sejam realistas. Peçam o Impossível” foram parte integrante do leque de contestações na altura. A França da altura observou uma revolução romântica, de emancipação individual, conceitos como «revolução sexual» e a banalização da palavra «liberdade» para tudo e mais qualquer coisa e o restringir do conceito de «igualdade» em apenas alguns contextos de natureza irrelevante nasceram no Maio de 68.
Foi a morte da verdadeira esquerda, da substituição da luta de classes pelas manifestações inconsequentes por direitos e liberdades que não impedem ninguém de cair na falência, na fome, na deseducação e na condição de sem-abrigo.

O sindicalismo, o comunismo e o anarquismo de espírito revolucionário na Europa esfumaram-se nos valores superficiais de um romantismo político, mas ineficiente e sem orientação, e à consequente comercialização dos ideais (?) de 68.

Hoje os tempos são outros, desde a hiper-sexualização de tudo o que mexe ao uso e abuso da palavra «liberdade» para fundamentar todos os comportamentos e todas as políticas que, invariavelmente, trazem mais prejuízo às populações que benefícios ou pedidos de «igualdade» perante a lei e a sociedade em assuntos que não vão além do tabu. O Ocidente moderno é fruto do Maio de 68, dos seus lemas confusos, dos seus ideais naïve, das suas manifestações festivas e do seu romantismo sem limites.

A sociedade despreocupada, viciada no entretenimento e iludida pelos estereótipos do glamour beau-vivant foram gerados dos comportamentos “rebeldes” nos anos 60, 70 e 80 e agora são comummente adoptados como lugares-comuns da prática social.

A sexualização de cada acto, imagem ou palavra, a utilização da liberdade para legitimar qualquer acto que vá contra o colectivo ou para celebrar uma “democracia” que mais nada faz que eleger líderes de 4 em 4 anos, a proibição de acesso à igualdade nos termos da exclusão social, dos direitos sociais e relações laborais mas a sua banalização e mediatização em assuntos menores desvirtua por completo o carácter revolucionário de uma verdadeira democracia, onde os cidadãos possam ter uma voz activa na construção e discussão pública da sua comunidade, na qual os trabalhadores vivem num ambiente de dignidade e têm direito a dizer de sua justiça relativamente ao rumo que o seu local de trabalho está a tomar, uma sociedade onde todas as gerações têm uma perspectiva de vida digna e realmente livre e liberta dos artifícios que uma sociedade de consumo comporta.

E apesar da ilusão generalizada e da repressão imediata a qualquer comportamento e activismo fora dos «clichés» propagados pela sociedade nascida do Maio de 68 ainda existe quem descubra por si, ao observar o panorama social, o verdadeiro sentido da democracia, do seu inerente impulso de partilhar a discussão política da nação e da comunidade entre todos, discussão essa que vai muito além do representativismo mas que abarca uma vontade de diálogo entre a população. Ainda há quem se aperceba do enorme erro que a geração do Maio de 68 cometeu ao abrir as portas ao capitalismo, imaginando-o de rosto humano e embandeirando infâmias e confundindo-as com liberdade. É a desilusão que toma o ânimo das populações jovens e dos trabalhadores, condenados a uma vida de incerteza minada pela precariedade, enquanto uma minoria se aproveita do fruto do seu trabalho e das condições inseguras que enfrentam todos os dias.

Desde os serviços públicos e monumentos históricos privatizados, a ofertas de lugares no governo aos CEO’s e à liderança das multinacionais por ex-funcionários públicos, à invasão da publicidade em todos os espaços a todo o momento, à legitimação da opressão dentro do mercado de trabalho e no espaço social, ao crescimento de desigualdades e injustiças insanáveis e a perda do sentido de humanidade dentro de uma sociedade que se fundou sobre falsas premissas de liberdade, igualdade e revolução levem as populações de um «Sejam realistas. Peçam o impossível» para um trágico e desesperado grito «Devolvam-nos a nossa vida».

terça-feira, 9 de dezembro de 2008


Notícias chegam da Grécia de revoltas populares e da própria América de acções do povo e dos trabalhadores para restabelecerem algumas das injustiças perpetradas pelo capitalismo e seus principais agentes.

Quando o capitalismo recorre à barbárie mais ominosa, o povo e os trabalhadores respondem, porém, quem manda na economia, na política, na comunicação social e nas autoridades policiais e militares acredita que a classe trabalhadora e o povo está bem é calado, amordaçado e ajoelhado perante os interesses capitalistas.

Estes episódios e outros não passam senão de fenómenos esporádicos, de gentes e massas demasiado desesperadas para não actuar, para não recorrer aos extremismos, porque foram postas em baixo demasiado tempo, mas não creio ser o suficiente para acabar com o capitalismo ou sequer dar sinais disso, por enquanto.

A História dará razão aos revolucionários e mais época menos época, os livros de História dirão que o Capitalismo foi um erro histórico. Mas até lá, que se louve quem luta em tempos de covardia, ignorância e apatia em massa.